29 de janeiro de 2019

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Qual é o limite de uma amizade? O novo filme da Disney, Wi-fi Ralph, busca debater sobre esse tema.

Antes de falar sobre o principal tema, só quero desejar uma super boas-vindas no Arteculando. É uma extrema felicidade poder voltar a esse projeto tão querido e apaixonante. Agora, chega de bla-bla-bla e vamos ao que interessa: Vamos falar sobre o último filme lançado pelos estúdios da Walt Disney Motion Pictures, Wi-fi Ralph (o conhecido Detona Ralph 2). Só para avisar, como irei falar sobre um tema debatido no filme, pode conter spoilers, então se você ainda não assistiu, corre para o cinema mais próximo, confira essa lindeza e depois volte para cá para conversamos sobre essa história!

Wifi Ralph

Ao ver o trailer, não conseguia imaginar qual seria a trama do filme, afinal, acompanhamos uma reviravolta em Detona Ralph e não pensava numa continuação e coitada de mim, a Disney conseguiu me surpreender novamente e dessa vez a surpresa não foi pelo plot twist ou por uma grande novidade, mas sim pelo tema que a Disney quis abordar: amizade tóxica e como isso é muito presente em nossa vida.

Não dá para negar que a amizade entre o Ralph e a Vanellope foi muito bem construída em Detona Ralph e se tornou uma das nossas amizades favoritas nos últimos tempos pela diferença de cada personagem e a forma que um ajuda o outro a ser melhor e superar barreiras - como quando o Ralph aceitou ser o "vilão" do seu jogo, mas pôde ser o herói fora das telas -. Poderia ter terminado com aquele final, lógico que poderia, mas a Disney quis se desafiar e obrigada Disney por sempre tentar fazer algo melhor!

A maioria das vezes vimos os finais felizes mais comuns nas animações por se tratarem de um filme para "crianças" - como os amigos voltarem a vida deles melhores por estarem juntos -, mas a verdade é que esses finais não são parecidos com a vida real e às vezes não nos impacta tanto, mas Wi-fi Ralph impactou exatamente por abordar sobre o limite de uma amizade e que não devemos depender a outra pessoa, não importa o quão confortável seja.

Quando falamos de relacionamento tóxico, pensamos muitas vezes apenas em amoroso, mas esquecemos entre amigos e familiares, já que não é muito conversado entre as pessoas (se nem amoroso é tão conversado, imagina os outros tipos de relacionamentos...), mas vamos falar sobre isso hoje. Primeiro, você sabe o que é uma amizade tóxica? 

Amizade tóxica seria uma relação que produz sofrimento - ou seja, em vez de nos ajudar e nos apoiar, se torna mais uma energia negativa na nossa vida - e existem estudos e debates que falam sobre alguns sintomas para identificar o relacionamento tóxico, como: os problemas deles são mais importantes do que os seus, eles falam mais do que ouvem, você para de falar com ele sobre problemas/dúvidas pessoais para não incomodar ou achar que não vai receber o apoio e principalmente tem uma dependência muito forte, impossibilitando a outra pessoa a tomar algumas atitudes.

De início vimos que o Ralph era muito ligado na amizade com a Vanellope e achamos normal, até mesmo bonito, ver ele se esforçando em ser o herói para sua melhor amiga - a pessoa que fez com que ele pudesse entender mais sobre si e confiar no seu interior -. Mas no decorrer da história, podemos ver mais sobre essa ligação e perceber que ele criou uma dependência na Vanellope, por deixá-lo mais confortável.

À questão é que dependemos de alguém quando falta algo dentro de nós e projetamos nossas ausências em outras pessoas para conseguir suprir o que é vago internamente. No filme, Ralph projetou a dúvida de seu heroísmo na Vanellope, pois ela era a única que acreditava que ele poderia ser um herói e esse desejo de nunca mais ser um vilão fez com que ele se apegasse a essa amizade (o colar simbologia esse apego por ser um herói).

E isso desencadeia outros aspectos de uma amizade tóxica, como a Vanellope reprimir seus desejos de ir para a Corrida do Caos (sendo que ela só consegue admitir para si quando canta "Esse é o lugar", mais para o fim do filme - tornando a mais nova princesa da Disney, será?) para não magoar o Ralph e isso vai destruindo aos poucos a personagem, cada vez mais fechada com seu amigo, não conseguindo conversar com ele e gerando dúvidas se deveria permanecer na Corrida do Caos (o destino que ela queria seguir) ou voltar para a Corrida Doce.

No fim, o vírus do Ralph representa a insegurança, carência e dependência do personagem, mostrando de forma bem evidente que esses sentimentos atrapalham não só a si, mas as pessoas ao seu redor, principalmente quem mais amamos. E que quando amamos alguém, precisamos deixá-lo livre e que a verdadeira amizade não termina pela distância.

Apesar de Wi-fi Ralph ser categorizado como uma animação para criança, a história aborda temas que são presentes nos adolescentes e adultos, porque às vezes temos atitudes que machucam pessoas que amamos e não conseguimos enxergar isso. Amizade tóxica está muito presente em nossas vidas e não percebemos isso, então podemos criar um desafio entre nós? Podemos começar a ver os nossos relacionamentos com outros olhares? Podemos começar a ver nossos relacionamentos como apoio, mas não a nossa vida? Podemos ajudar os outros, quando vermos que alguém está em relacionamento tóxico? Topa esse desafio?

22 de janeiro de 2019

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O Fantasma da Ópera, lançado em 1910, debate vários aspectos sociais e hoje vamos conversar sobre a metáfora da escolha a partir do triângulo amoroso

o fantasma da opera

Criado por Gaston Leroux, o livro O Fantasma da Ópera já teve cinco filmes adaptados desde 1925 e inúmeras produções musicais nos teatros de diversos países, se tornando até hoje o musical com maior tempo em cartaz na Broadway.

Em 2005, o musical O Fantasma da Ópera fez um grande sucesso nos palcos brasileiros e no dia 01 de agosto de 2018, as cortinas se abriram novamente para a história de Christine, Erik e Raoul.

Para quem não sabe, O Fantasma da Ópera conta a história de um misterioso fantasma que mora no Palais Garnier - a principal casa de ópera de Paris -, também conhecido como “anjo da música” que guia a jovem Christine Daaé a cantar melhor e ir além de uma bailarina nas peças. Em seu momento de destaque, Christine revê Raoul, uma antiga paixão de infância, provocando a ira do fantasma e revelando mistérios do passado.

A obra tem diversas interpretações e discussões até os dias de hoje, envolvendo principalmente o protagonista - o Fantasma -, seu relacionamento com Christine e o triângulo amoroso ao redor de toda a história.

Na primeira vez que assisti ao filme O Fantasma da Ópera (versão de 2004), eu acreditava que era um musical que focava nos problemas do fantasma Erik e o triângulo amoroso trágico que está presente desde o começo do filme, mas ao assistir novamente comecei a ter outra visão da história, principalmente do triângulo, não focando tanto no romance, mas sim na autodescoberta da Christine e nos seus embates internos.

A protagonista era filha de um renomado violoncelista e desde muito nova teve a música presente em sua vida, pois retomava a paixão do pai e a sua ligação com ele. Quando está prestes a falecer, o pai diz que Christine terá um anjo da música que irá protege-la e a única pessoa que teve essa relação de proteção com ela foi o pai, isso faz com que, no momento em que o fantasma Erik começa a conversar com ela e treiná-la, ela retoma o sentimento de proteção e uma aparente aproximidade com o pai, já que a música era vínculo muito forte entre eles.

Além disso, o Fantasma é a personificação da música, da arte. Isso deixa transparecer em várias cenas, mas principalmente entre as músicas Phantom of Opera e The Music of the night.

- Christine -
“Eu sou a máscara que você usa...
- Fantasma -
Sou eu quem eles ouvem...”
(Trecho da música Phantom of Opera)

"Suavemente, primorosamente a musica vai acariciá-la
Ouça-a, sinta-a, secretamente possuindo você
Abra sua mente, liberte as suas fantasias!"
"Só assim você poderá pertencer a mim"
"Deixe o sonho começar, deixe que o seu lado sombrio seja vencido
Pelo poder da música que eu componho
Pelo poder da música da noite
Somente você
Pode fazer com que a minha canção alce voo
Ajude-me a fazer a musica da noite"
(Trechos retirados de The Music of the Night)

Isto é, Erik é a própria arte e é necessário de uma artista (no caso, a Christine) que o escute para propagar a arte, a si mesmo, já que a sociedade não o aceita pela sua aparência exterior. Isso faz com que o Erik seja o lado artístico da Christine, da escolha da arte, de continuar cantando e vivendo da música, assim como o pai.

Em contrapartida, temos Raoul, que também remete a infância e, consequentemente, ao seu pai. Ele foi uma paixão de infância de Christine e no primeiro momento ele não a reconhece, apenas depois de sua apresentação musical (Think of me) que ele se encanta ao vê-la. No contexto, Raoul seria o lado mais emocional da Christine, que foi representado a partir do amor, e a fuga da vida artística, vivendo no conformismo proposto pelo “herói”, como fica bem representado na música All I ask of you.

“Eu estou aqui, nada pode te ferir
Minhas palavras irão te aquecer e te acalmar
Deixe-me ser sua liberdade
Deixa a luz do dia secar suas lágrimas
Eu estou aqui, com você, ao seu lado
Pra te guardar e te guiar”
(Trecho de All I ask of you)

Ou seja, o triângulo amoroso representa o debate interno da Christine em continuar com a música ou fugir da vida artística e viver no conformismo. No decorrer da história, vemos que muitas de suas escolhas são feitas a partir do passado voltado ao seu pai e na cena do cemitério, ao ver o túmulo de seu pai e conversar com ele, é um momento que a personagem se desprende de suas escolhas baseadas em seu pai e decide começar a viver no presente, olhando para o futuro.

Assim como Christine, nós estamos sempre lidando com escolhas e dilemas que podem mudar a nossa vida e muitas vezes buscamos escolher a mais confortável e aquela que nos prende a algo ou alguém que foi bom no passado, mas precisamos viver no presente, realizando escolhas que sejam a melhor para o agora e, quem sabe, para o amanhã.

Não há um certo ou errado (ou seja, as discussões da escolha da Christine serão eternamente discutidas), as escolhas são pessoais porque ninguém sabe o que realmente somos a não ser nós mesmos.
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Julgamento social, marginalização e exclusão são decorrentes discussões na cultura, mas até hoje temos esses problemas na sociedade, quando isso vai acabar?

Muitas vezes, quando vamos discutir sobre a exclusão social pela determinação de uma beleza padrão, pensamos primeiramente no personagem Fera, do filme A Bela e a Fera, que lançou em 1991 pela Disney e hoje é considerado um dos clássicos filmes do estúdio. A história é bela e realmente apresenta essa exclusão, mas hoje eu quis pegar outros dois personagens que retratam (talvez, mais que a Fera) o julgamento social àqueles que aparentam ser diferentes de nós: O Fantasma Erik e Quasimodo.

Ao reassistir a adaptação da obra de Gaston Leroux, O Fantasma da Ópera, sabia que precisava discutir sobre a exclusão e marginalização do fantasma Erik. E, ao pensar nesses tópicos de discussão, lembrei de um personagem que marcou muito a minha infância e de muitos, mas que acabamos deixando de lado e não falando tanto desse personagem – assim como a história -, que é o Quasimodo, de O Corcunda de Notre Dame, escrito por Victor Hugo e adaptado em diversas mídias, seja em quadrinhos, filmes, peças teatrais ou animações.

o fantasma da opera

Fantasma Erik - O Fantasma da Ópera

Para quem não sabe, O Fantasma da Ópera conta a história de um misterioso fantasma que mora no Palais Garnier - a principal casa de ópera de Paris -, também conhecido como “anjo da música” que guia a jovem Christine a cantar melhor e ir além de uma bailarina nas peças. Em seu momento de destaque, Christine revê Raoul, uma antiga paixão de infância, provocando a ira do fantasma e revelando mistérios do passado.

Eu já fiz uma interpretação do significado do triângulo amoroso presente na história (se quiser conferir, só clicar aqui e ser feliz!) e sabia que precisava falar em outro texto sobre o Erik, o protagonista da obra, porque ele deveria ser considerado um ““vilão”” por suas atitudes ao decorrer da história, mas a cada cena, vamos nos aproximando e desejando o melhor para o fantasma e quando você vai ver, está se emocionando pelas suas dores e querendo abraçá-lo e confortá-lo ao máximo.

A história dele é o seguinte: Erik nasceu deformado e a primeira peça de roupa que ele recebeu foi algo para esconder sua deformação. Na sua infância, ele foge de sua família - que o desprezavam pela sua aparência - e junta-se a um grupo de ciganos e é ai que a história muda entre o livro, os musicais e outras adaptações - se muda para a Pérsia e lá ele aprende seus talentos e depois volta para Paris ou ele é uma atração no circo organizado por ciganos, ele apanha diariamente e é considerado uma aberração, até que ele foge para o porão do Palais Garnier -. Mas resumindo: Os pais nunca o amaram, ele foi desprezado desde a sua infância e ninguém nunca teve compaixão por ele, até que chega Christine, a primeira pessoa que o escuta, mesmo sem vê-lo, como ele mesmo fala durante a música No one would listen (cena deletada do filme de 2004, confira aqui).


“Ninguém ouviria

Ninguém.. mas ela,

Ouviu como somente um proscrito ouviria. 
Envergonhado na solidão.. 
Escondido pela multidão.. 
Eu aprendi a ouvir 
Em minha obscuridade, meu coração ouviu a música. 
Eu quero ensinar o mundo a se erguer e alcançar o topo 
ninguém ouviria” 
(Trecho de No one would listen)


O personagem tem muito talento, mas nunca teve a oportunidade de ser prestigiado pela sua música, só amedrontado pela sua aparência. É ai que vem a marginalização, pois não interessa toda a sua genialidade, ele não conseguiria ser “alguém” perante a sociedade porque não segue o padrão e isso faz com que ele vá para a margem, fique escondido no porão da casa de ópera e, principalmente, escondido atrás de uma máscara.

Essa marginalização faz com que ele comece a ter ações adversas e impetuosas, mas no momento em que ele vê seus sentimentos sendo retribuídos, conseguimos conhecer a verdadeira face do personagem, uma pessoa – que assim como todos nós – só queria ser amado e compreendido.

o corcunda de notre dame

Quasimodo – O Corcunda de Notre Dame

Se você nunca assistiu ou leu essa clássica obra de Victor Hugo, você tem que saber que O Corcunda de Notre Dame conta a história de Quasimodo, um corcunda (considerado um “quase monstro”, por isso o seu nome), que perde os pais bebê e vai morar – aos cuidados de Frollo, o juiz da cidade e assassino da mãe de Quasimodo – nas torres de Notre Dame, longe de todo o contato humano até os 20 anos, até que há uma festa na cidade e ele decide fugir. Nessa fuga, ele descobrirá que o mundo não é fácil, que as pessoas podem ser más, mas que têm pessoas boas e que vale a pena lutar.

Assim como O Fantasma da Ópera, a obra é complexa e tem vários assuntos que precisam ser debatidos – envolvendo principalmente o vilão da história, Frollo – e eu pretendo escrever sobre isso em breve, mas hoje irei focar apenas no nosso protagonista que nos conquista desde o primeiro momento. Ele nunca teve contato com as pessoas, não sabe a sua verdadeira história, então ele é um garoto tímido, desajeitado, infantil e que acredita em seu “mestre” - que diz que ele precisa ter medo das pessoas -, mas tem o desejo de estar com elas, de viver como elas.


“[Frollo:]Lembre-se do que te ensinei, Quasímodo

Você é deformado

[Quasímodo:] Sou deformado
[Frollo:] E você é feio
[Quasímodo:] E eu sou feio
[Frollo:]E esses são crimes
Para os quais o mundo
Mostra pouca piedade”
(Trecho de Out There)



A marginalização do personagem também está muito presente nessa história, porque o Quasimodo observa toda a Paris apenas nos altos, a partir de suas torres. De início, há um conformismo vindo dele por ele mesmo se achar um monstro e uma ignorância referente ao mundo, mas no momento em que ele conhece Esmeralda, ele começa a se enxergar e a superar barreiras pela amizade e é no momento que ele se aceita, que as outras pessoas começam aceitá-lo, amá-lo e compreendê-lo.

E o que nós temos a ver com tudo isso?

É fácil falar de obras, de personagens fictícios que sabemos toda a história de vida, a ter empatia por eles. Mas já parou para pensar se você respeita e tem empatia por aquela pessoa diferente de você? Aquela pessoa que os outros criticam? Aquela pessoa que não tem a beleza padrão considerado pela sociedade? Aquela pessoa de outra classe social ou orientação sexual ou outra cor ou, até mesmo, outro sexo?

Já parou para pensar qual é a sua empatia referente ao outro? É muito fácil apontarmos, criticarmos e – mais fácil ainda – excluirmos alguém por ser diferente, por não viver no padrão que decidiram que seria o padrão, o difícil é olhar de verdade, respeitar, amar, admirar alguém pelo o que realmente é, não pelo o que aparenta ser.

Há vários Fantasmas Eriks, Feras, Quasimodos no nosso mundo e, na verdade, até mesmo nós. Todos nós somos diferentes e únicos e, contrariando as sociedades vilãs apresentadas nessas histórias, tenha empatia por todos, seja gentil. Como R.J. Palacio falou em Extraordinário, “quando tiver que escolher entre estar certo ou ser gentil, escolha ser gentil”.
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Simon precisou tirar algo do armário, assim como eu e todo mundo. O que você precisa tirar do armário?

Filme com amor simon

Nos últimos anos, filmes LGBT começaram a ganhar espaço no cinema, principalmente pelo reconhecimento nas Academias, como Moonlight e Me chame pelo seu nome que ganharam estatuetas no Oscar de 2017 e 2018, e a tendência é que, pouco a pouco, os filmes LGBT ganhem mais visibilidade, espaço nos cinemas e que gerem discussões sociais (manda mais que tá pouco!).

Em meio dessa transição cinematográfica, nasce o filme Com amor, Simon, adaptação do livro Simon vs a agenda homo sapiens de Becky Albertalli, que traz uma trama e linguagem leve, voltada ao público jovem, se diferenciando dos outros filmes da temática, que muitas vezes são mais adultos e com finais infelizes.
Meu nome é Simon e eu sou igual a você.
De início somos apresentados a Simon, um garoto como qualquer outro adolescente, com grandes amizades, uma família normal e com problemas no colégio. E o que diferencia Simon de outras pessoas? O simples fato dele ser gay e ter o embate interno em anunciar ao mundo uma parte de quem ele é. Com esse segredo, Simon se afasta das pessoas e faz de tudo para que sua intimidade não seja revelada.

Em meio a trama, iremos acompanhar o primeiro amor de Simon, um garoto misterioso chamado Blue. Por meio de correspondências eletrônicas, Simon e Blue iniciam uma amizade com troca de confidências e vamos acompanhando a trajetória do garoto na busca de Blue e na identificação de seus sentimentos.

Com cenas emocionantes, um elenco bem escolhido, uma cenografia que deixa a história mais leve e acolhedora para o telespectador, a película cativa desde o início. Apesar de ser uma obra repleta de humor e leveza, Com amor, Simon é um filme para se questionar, colocando-se no lugar do outro. Se um gay é igual a qualquer outra pessoa, por que a sua orientação sexual influencia sua vivência e formas de encarar situações cotidianas?

O que me encantou na história é a leveza do romance e no progresso do relacionamento entre o protagonista com Blue. Em tempos de discussões negativas, homofobia e uma listagem gigantesca de filmes LGBT dramáticos com finais infelizes – com o casal separado ou até mesmo com uma morte inesperada –, Com amor, Simon é um dos poucos longas que aborda a temática gay com uma essência amena, que não é sobre a descoberta de ser gay ou não, mas a coragem que é necessária para dizer quem você é para o mundo e isso gera uma identificação com o telespectador, homossexual ou não, porque todos têm segredos e medo do mundo.
 Anunciar quem você é para o mundo é aterrorizante. Por quê? E se o mundo não gostar de você?
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Ah, o amor! Passarinhos cantando, arco-íris no céu, o dia florido, cabeça nas nuvens, borboletas no estômago e aquele sentimento de loucura e dependência - Epa, calma! Loucura e dependência não

relacionamento abusivo livros

Desde a infância somos expostos na convicção de que encontraremos o “amor de nossa vida”, possivelmente na transição entre a juventude para a fase adulta, e ao passar dos anos essa pressão vai aumentando, fazendo-nos questionar quando o querido príncipe encantado de cavalo branco irá aparecer, salvando nossas vidas monótonas e sem sentido. Essa ideologia está em todos os lados - pessoas, mídia e ficção

Lembro de rodar pela sala como se estivesse dançando valsa com meu príncipe de contos de fadas da Disney, querer um vampiro como Edward Cullen para chamar de meu, desejar viajar no tempo e encontrar o meu James Fraser ou até mesmo mudar a vida de um bad boy universitário com o amor… Afinal, quem não quer uma grande história romântica cheia de reviravoltas e emoções?

É nesse desejo de ter o que nos foi imposto desde nossa infância que o amor se torna uma cilada e o que deveria ser uma parte da felicidade se torna o maior pesadelo… Um tal de relacionamento abusivo, já ouviu falar?

O relacionamento abusivo vai muito além da violência física, ele pode começar com ciúmes e possessividade, ridicularizando o parceiro, chantagem na falta de carinho e atenção, querer isolar dos amigos e familiares, ter controle em decisões do outro. O abuso começa sutilmente e é aí que está o problema, pois as pessoas não percebem que estão entrando nessa relação porque, na cultura atual, há um limite para possessividade, como se até um certo ponto um ser humano pudesse ser de outra pessoa. A arte e o entretenimento são grandes influenciadores da sociedade, assim como a literatura, o nosso objeto de pesquisa da vez.

É com dor no coração que venho aqui falar sobre a romantização dos relacionamentos abusivos na literatura, sendo mais específica, no gênero de New Adult (NA).

Proposto pela primeira vez em 2009 pela St. Martins Press e ganhado popularidade em meados de 2013, New Adult é uma nova categoria voltada aos jovens adultos. Abordando a temática de jovens que atingiram a maioridade mas ainda estão no processo de transição, descoberta e construção do caminho em amadurecer. Tá legal, mas o que o diferencia de um Young Adult ou Adulto? É a transição dos personagens, seu primeiro emprego, ida a faculdade, morar fora de casa, busca de independência e autoconhecimento, sobrevivência depois de um trauma e um forte elemento nesse gênero é um relacionamento conturbado entre os protagonistas.

É como uma receita de bolo: A protagonista tem um trauma do passado, entra na faculdade e conhece um bad boy pegador, eles vão brigar desde o início mas a atração física estará sempre presente. Depois de muitas brigas, eles ficarão juntos, mas em um relacionamento conturbado e dependente (o querido relacionamento abusivo), eles se separam e, no fim, ficam juntos.
OBS: Muitos NA seguem essa fórmula, mas existem outros tipos de livros no gênero. Não estou generalizando como se todos os livros fossem assim.

Apesar de alguns livros abordarem essa temática de forma crítica - como É assim que acaba (Colleen Hoover), Sorrisos Quebrados (Sofia Silva) e Amor Amargo (Jennifer Brown) -, existem outros que romantizam essa temática, pois todo ciúmes, possessividade e dependência é uma forma de demonstrar o amor, toda briga que tem violência termina no “melhor sexo de todos”, a chantagem na falta de carinho e atenção é uma consequência do trauma do passado e o controle nas decisões e ações do parceiro é uma preocupação pelo outro.

Em diversas obras do NA (e de todos os outros) podemos ver um ou todos esses elementos, como em um dos pioneiros do gênero e o mais famoso, Belo Desastre de Jamie McGuire. O livro contará a história de Abby, uma garota que, para fugir de seu passado perturbador, irá para a faculdade em outro Estado junto com sua amiga e lá ela conhecerá o bad boy e o maior pegador da universidade, Travis Maddox. De começo, Abby e Travis serão amigos, mas a forte atração sempre estará em torno deles.

Durante o começo, veremos Abby tentando se afastar de Travis, mas o garoto ficará atrás dela, insistindo em conhecê-la. A amizade entre ambos era saudável e gostosa de ser lida, mas quando o relacionamento torna algo maior que uma simples amizade, Travis ficará obcecado pela protagonista, estando com ciúmes dos amigos da garota e do outro pretendente da protagonista, tornando-se mais violento e impulsivo com rapazes que tentavam conversar com ela, chantageando-a para ter atenção e quando começam a namorar o “mocinho” fica possessivo e passa a controlar as decisões e impedir algumas escolhas da protagonista.

As atitudes explosivas do protagonista eram sempre justificadas e aceitas, como se ele não tivesse controle de si e que não era culpa dele. Mas deixa eu te dizer uma coisa: É culpa dele!

Além de Belo Desastre, temos a série Sem Limites de Abbi Glines e After de Anna Todd, destaco o último, pois, apesar do gênero NA ser indicado para maiores de 16 anos e ser feito para pessoas de 18 a 26 anos, After ficou famoso entre o público jovem. Se para os “jovens adultos” e adultos esses livros são grandes influenciadores da ideologia, para os adolescentes a preocupação é maior.

Minha função não é realizar um julgamento, mas é uma forma de tentar fazer com que paremos um pouco para questionar sobre qual conteúdo estamos consumindo, pois a literatura faz parte da formação das pessoas, influenciando em como pensamos e agimos em nossos próprios relacionamentos e na vida pessoal.

Abuso, independente do tipo, não deve ser romantizado, porque, de acordo com a pesquisa realizada com mulheres de 14 a 24 anos pela ONG livre de abuso, mais da metade das entrevistadas já sofreram algum tipo de violação de seu parceiro, seja assédio, controle ou ter relações sexuais a força.

Amor é querer e fazer o bem ao outro a partir do companheirismo, é fazer parte da vida do parceiro, não ser a vida do outro. O amor não muda uma pessoa abusiva, o amor pode curar, mas não faz milagres.